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transmakuná

 transcriação / transmutação / transgressão / transbordamento / transe / atravessamento

ilustração Rodrigo Barja 

 

transmakuná é um projeto/ tronco de pesquisa permanente e criação in progress, ao qual a multiartista Iara Rennó se dedica há 20 anos. Seus galhos e frutos incluem uma série de produções artísticas criadas a partir do contato com a rapsódia Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade e com a mitologia dos povos Taurepang e Macuxi sobre a entidade criadora e mutante Makunaimã. 

transmakuná se desdobra em obras e eventos de múltiplos formatos: música, teatro, poéticas, palestra-performance, instalação, dança, performance, cinema e artes visuais, mantendo um diálogo perene com a literatura, ampliando os campos de debate sobre decolonialidade, feminismo e anti-racismo e transportando o público para o universo de Makunaimã, com suas diversas camadas no tempo e espaço.

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Macunaíma Ópera Tupi
Album, 2008

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MACUNA (trio); Makunaima (big band show)
Music show - permanent

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Macunaíma Ópera Tupi - Trans_Criação
Teatro - 2010/ 2019

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Makunaima - O Mito Através do Tempo 
Book (editora Elefante, 2019) - autoria coletiva 

Macunaíma Música e Prosa
Palestra Performance - permanente

 

A música como ponto de trans_mut_ação

Figura central do Modernismo brasileiro na década de 20, o escritor Mário de Andrade era também musicólogo e tinha formação musical, o que fez com que o autor desaguasse sua musicalidade em Macunaíma. Na tentativa de encaixar sua obra prima  em uma classificação literária, o autor usou o termo rapsódia, que para ele "remetia diretamente às fantasias instrumentais que utilizam temas e processos de composição improvisada, tirados de cantos tradicionais ou populares". Foi através do ritmo da prosa, das palavras, ou da métrica dos versos, que Iara ouviu a música que já estava implícita no livro. Sua transcriação musical foi guiada por essas descobertas somadas a sua identificação pessoal e seu encantamento pela poli-semântica do texto e a revolução sintática com a qual ele confronta o leitor. A profusão de línguas de diferentes etnias que no Brasil se encontraram foi por ela transformada em canções, gravadas no disco Macunaíma Opera Tupi. 

Antropofagia e modernismo hoje

 

Iara espelha o movimento antropofágico ao alimentar-se da obra de Mário, e, a cada nova produção artística, apresenta uma leitura sócio-política atualizada. A ferida exposta na obra através do herói/ anti-herói sem identidade e sem caráter provoca discussões ainda muito atuais. Iara, mestiça assim como o próprio Mário de Andrade, identifica-se com o translugar da personagem em seu não-pertencimento a uma etnia única e definitiva ou a uma tradição cultural fechada, mas em pleno processo de expansão criativa e auto-afirmativa de seu lugar na diversidade, em contraponto a alienação gerada no processo de branqueamento incutido na sociedade brasileira desde o início de sua história. Iara traz ainda sua visão feminista subvertendo o gênero do protagonista: Macunaíma passa a ser  Macunawoman, interpretada por Thalma de Freitas em sua primeira montagem (2010) e pela artista transgênero Aretha Sadick (2019), colocando em evidência a mulher negra e enfatizando sua importância como fundamento dessa cultura em formação. 

Em 2022 completa-se o centenário da Semana de Arte Moderna. Ao abordar o Modernismo hoje, transmakuná propõe sua atualização: pela representatividade de raça e gênero; com o diálogo e a inclusão de produções de artistas indígenas, pretas e pardas, fomentando assim o surgimento das estéticas que nascem da necessidade de uma expressão não hegemônica.

No fio da história

MOVIMENTO MODERNISTA

Semana de Arte Moderna de 1922

"Estamos reagindo contra o preconceito da forma. Estamos matando a literatice. Estamos acabando com o domínio da França sobre nós. Estamos acabando com o domínio gramatical de Portugal. Estamos esquecendo a pátria-amada-salve-salve em favor duma terra de verdade que vá enriquecer com o seu contingente característico a imagem multifacetada da humanidade. [...] Estamos fazendo arte muito misturada com a vida".

 

Além de Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Pichia e Tarsila do Amaral, Mário de Andrade foi uma das figuras centrais do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Treinado como músico e mais conhecido como poeta e romancista, Andrade se envolveu pessoalmente em praticamente todas as disciplinas relacionadas ao modernismo paulistano e se tornou o polímata nacional do Brasil. Suas fotografias e ensaios sobre uma ampla variedade de assuntos, da história à literatura e à música, foram amplamente publicados. 

Macunaíma "de" Mário 

No final do séc XIX, o etnólogo alemão Koch Grunberg realiza uma longa expedição mas terras indígenas da Amazônia latino-americana e publica Von Roraima zum Orinoco, ensaio no qual registra relatos de um contador taurepang sobre as culturas e cosmologias dos povos da região. Mário de Andrade não nega que esta foi sua principal fonte para a criação do romance Macunaíma, lançado em 1928. "Copiei mesmo!"- afirma o autor, compondo assim sua grande obra literária antropofágica, aquela que seria uma das mais importantes referências modernistas, atravessando o século XX e adentrando ao século XXI. As histórias e personagens narradas pelo indígena são adaptadas na narrativa de Mário, que conta a história de um protagonista transmutável, imprevisível, dotado de poderes mágicos - como por exemplo a propriedade de se transformar em qualquer forma mineral, animal ou vegetal - e que vive operando prodígios. Seu caráter e moralidade fora dos padrões, bem como sua sexualidade exuberante e irrefreável, têm sido em particular objeto de intensa exploração crítica.  

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